Sem se importar com a indiferença de Margot, o estranho permanece ali calmamente fumando e observando enquanto ela luta para se manter séria e calma. Pena! Margot nunca foi uma moça das mais calmas e se enfureceu com a postura daquele sujeito que a encarava descaradamente. Antes que ela pudesse explodir com ele, o cara abre um sorrisão e lhe pergunta o que ela estava ouvindo. Margot não acredita na ousadia do rapaz, mas lhe responde educadamente:
- Magic Numbers.
- Nunca ouvi. Posso? - ele ergue a mão e pede um dos fones de ouvido. Ela cede. - Humm…interessante…E ai? Qual o seu nome?
- Margot.
- Prazer, Tomás. Humm, volta essa música? - ela atende ao pedido. - Gosto dessa letra, essa é a nossa música…. - ele ri debochado.
Com o coração disparado pela proximidade do rapaz e pelo que acabara de ouvir, Margot engole em seco e o desafia:
-Oi? Como assim? Eu nem te conheço!
-Bem, você já sabe meu nome.
- Grande! Eu sei o nome de muitas pessoas que nunca nem sequer vi na vida.
- O que você quer saber sobre mim? - a mente maldosa dela a mandou responder “NADA”, mas antes que ela pudesse sequer abrir a boca ele disparou. - Tenho mãe, pai, uma irmã, mas que não moram comigo, faço pós aqui em jornalismo, trabalho como fotógrafo….hummm, o que mais???
- Não sei. Qual a razão pra isso? - ela estava inquieta.
- Sei lá. Achei que gostaria de te conhecer, ser seu amigo.
- Bom, isso é bem estranho. Ninguém te aborda, - Oi, meu nome é Fulano, te despeja mil informações a respeito de si mesmo e te pergunta “vamos ser amigos?”. Fala a verdade, você parece um stalker.
- Foi mal, acho que me afobei. E ai? Como a gente faz então? - ele indagou.
- Bora tomar um café, vamos conversar como dois estranhos que acabaram de se conhecer e se rolar uma afinidade a gente continua se esbarrando por aí, combina alguma coisa, sei lá. Que tal? - ela propôs.
- Tá bom, beleza!
Eles se encaminharam para a cafeteria, pediram cafés e pães de queijo, ele insistiu e pagou, ela deixou por que era fim de mês e já tava quebrada de grana. Sentados em uma mesinha mais afastada da multidão de estudantes que invadia todos os espaços naquele momento, eles descobriram muitas coisas um sobre o outro.
Ainda inquieta, mas incompreensivelmente abalada pela presença de Tomás e toda aquela conversa, Margot não para de olhar para o celular e verificar quantos minutos ainda faltavam para sua aula começar. Ela estava num duelo de sentimentos, queria continuar a conversar com Tomás, que se mostrara incrivelmente agradável, e escapulir daquela presença tão oprimente. Não demorou muito ela já se levantava e declarava que já passara da hora, se despediu e saiu como um míssil, sem olhar para trás.
Atordoado, Tomás lhe chama e começa a perseguí-la pelos corredores, ele não entendia a atitude da garota com quem até a pouco conversava tão animadamente. Ela olhou para trás e parou, virando-se para ele perguntou:
- Que foi? Esqueci alguma coisa?
- Não. -ele respondeu - é só que
O tempo passou desde então e Margot continuou firme às suas próprias regras, ela tivera vários casos, alguns namorados, mas nunca se apaixonou por ninguém, contudo essa restrição sentimental se alastrou para outros campos de sua vida e ela já não amava ninguém. Tinha grande afeição pela mãe e pelos avós, uma afeição menor pelos irmãos e nenhum amigo de longa data, daqueles que merecem o real título de amigo. Ela estava sozinha, gostava dessa situação de não ter ninguém por quem sofrer, para quem dever telefonemas, alguém para se importar com seu comportamento ou com suas atitudes, ela se sentia livre.
Conhecida por colegas de trabalho e de faculdade como a “pobre menina mimada que não ama ninguém”, Margot se orgulhava da sua situação e não se importava com nada nem ninguém mesmo. De certa forma, ela absorvera tão bem esse lema que já nem se lembrava do desejo de adolescente, ela estava tão envolvida em sua vida de trabalho e estudos que o prazer e a emoção foram relegados ao segundo plano. Ela aceitava os que vinham a ela e nem notava os que a abandonavam, se sentia alto suficiente, se sentia uma máquina.
Ela não estava preparada para aquele evento que a atingiria como um raio.
Eram sete e tantas da noite e Margot tinha aulas apenas no segundo horário, por essa razão ela se encontrava sentada em um banco ao ar livre, próximo a uma das entradas da faculdade, fumando um cigarro, curtindo um sonzinho em seu IPod e se deliciando com as páginas de um livro amarelado e sebento da biblioteca, que remontava o final da década de 40 nos EUA, com direito a cruzar o país de carona e grandes improvisações de jazz. Ela viajava naquele mundo pós-guerra e nem sentiu a presença de outra pessoa no mesmo banco, afinal estava muito escuro e ela estava bem embaixo do único holofote em metros, portanto era bem difícil perceber a aproximação de qualquer um se você não estivesse prestando realmente atenção, e ele se aproximou como um gato, com passos macios, mirando seu alvo na escuridão, com cautela. Ele já a havia avistado antes e decidiu que seria um bom momento para sua aproximação (ela só saberia disso bem mais tarde).
- Oi, me empresta o fogo?
Essa foi a fala (venhamos e convenhamos um tanto clichê) que a tirou do transe que o livro lhe incutia e a lançou em um vórtice de sensações desconhecidas. Tateando os bolsos em busca do isqueiro, ela levantou os olhos para ver que lhe interrompia e se deparou com um vulto alto e esguio, com olhos brilhantes e um cigarro pendendo do lábio, mesmo a essa distância sua visão não lhe definia as feições do estranho, somente ao inclinar o rosto para acender seu cigarro é que ela pode ver-lhe os traços bem marcados em um rosto forte, pode notar também a mão grande e fina que se esticou para lhe entregar o isqueiro das mãos. O estranho era jovem mas com certeza exalava mais experiência do que aparentava, ele então adentrou aquele halo estreito formado pela fraca luz amarelada do holofote e se sentou ao seu lado. Margot sentiu um formigamento lhe subir pelo estômago até a garganta formando um nó bem no meio da goela, ela sentiu muitas vontades mas não definia bem que desejo era o certo. Depois de um momento de hesitação ela se recolhe a indiferença e volta sua atenção ao livro. Mas aquele estranho não seria tão facilmente enxotado.
3ª canção -
Todos nós, quando pensamos no que queremos ser no futuro, nos espelhamos em experiências reais das pessoas que conhecemos, seja do círculo familiar ou através de amigos, vizinhos, até celebridades da TV ou do cinema. Como decidir sobre algo tão definitivo sem analisar previamente os exemplos que passam por nossa vida, sejam eles bons ou maus. A escolha quase sempre é inconsciente, uma vez que é a nossa afinidade com essa ou aquela pessoa que nos impulsiona a seguir esse ou aquele caminho. Bom, para Margot não foi diferente.
O grande exemplo da vida de uma garota de classe-média, suburbana, é a mãe, principalmente se a mãe for uma mulher inteligente e independente, com um futuro brilhante pela frente (pelo menos assim esperava a família). Nesses tempos em que a mulher busca cada vez mais reconhecimento e oportunidades para atuar no mercado de trabalho de forma mais igualitária aos homens, uma garota criada em uma casa com outras cinco pessoas do sexo masculino, bancada por uma mulher, chefe de família, Margot elegeu há muito em seu coração sua própria mãe como exemplo a ser seguido.
A relação entre mãe e filha nem sempre foi pacífica, já que o gênio de Margot transbordava seu senso de igualdade, independência e insubordinação. A mãe, muito mais plácida, recatada e complacente, admirava o espírito revolucionário da filha que se recusava a auxiliar nas tarefas domésticas se seus irmãos também não fossem obrigados a executá-las da mesma forma, contudo, sem poder convencer os meninos a colaborarem, tornava-se a escrava do lar. A mãe de Margot era a imagem de uma mulher esforçada, mas sem muita firmeza, afinal ela trabalhava para sustentar a família e ainda tinha que realizar todas as tarefas domésticas que os demais integrantes da família se recusavam a fazer. Sua falta de poder para impor sua vontade aos outros abrangia todos os aspectos de sua vida, o que a tornava alvo fácil da manipulação alheia e constituía assim seu pior defeito.
Margot admirava a garra e capacidade da mãe, pois reconhecia nela uma mulher forte que com sua força de vontade e inteligência se sobressaiu em uma família machista e conservadora. Sua mãe frequentara uma ótima universidade, lia bons livros, se interessava por teatro, cinema, todo tipo de expressão cultural, tinha uma boa profissão, etc, mas a complacência era algo que a diminuía aos olhos da filha. Margot não suportava a condição da mãe dentro da hierarquia familiar e desejava que ela se impusesse de forma mais confiante e dura, só que isso nunca aconteceu e essa percepção criou em Margot uma característica fundamental que marcaria para sempre suas escolhas e seu futuro.
Por ter se casado muito nova, com um homem mais jovem, ter tido muitos filhos sem uma base para sustentá-los, a vida da mãe de Margot nunca foi um mar de rosas e a submissão a essa condição era motivada por um único sentimento: o amor. Foi o amor pelo marido, pelos filhos, pela família que prendeu aquela jovem mulher a uma existência de renuncia e subjugação. Portanto, partem daí os primeiros desejos de Margot para o futuro.
Quando um dia, já no fim do ensino médio, a jovem foi obrigada a refletir sobre seu futuro, dois itens figuraram no topo da lista: nada de casamento, nada de filhos. Ela seria uma mulher que viveria para o trabalho, para a diversão, para os estudos, e a partir dessa imagem ela escolheu sua profissão, seus relacionamentos, seus gostos pessoais.
Por gostar de conhecer novas culturas e por ser muito sociável, Margot resolveu que deveria se entregar de corpo e alma aos estudos sociais, buscar a fundo conhecer as idéias que desenvolveram tantos movimentos revolucionários e culturais, a base para o pensamento racional, para a ciência. No campo afetivo, ela se fechou ao amor, pois não queria uma vida como a da mãe.
Nesse momento, ela se lançou a um desejo intenso de poder controlar seu próprio destino. Depois de assistir ao filme “De magia a sedução”, com Sandra Bullock e Nicole Kidman, ela descobriu uma forma mágica de assegurar que tudo seria como ela quisesse.
Em uma cena do tal filme, após descobrir que seu marido morreria caso se casasse, a personagem de Sandra Bullock criança realiza um encantamento, em que ela deseja por um amor para si, com características tão elaboradas que seriam impossíveis de existir no mundo real. Baseando-se nessa teoria, Margot começou a inventar o “homem dos sonhos”. Ela o conheceria precisamente aos 26 anos, ele seria um ano mais velho que ela, ele teria olhos de cores diferentes (um azul e um verde), deveria ter os cabelos loiros cortados bem curtos, ser mais alto que ela, ter a pele clara e uma estrutura corporal bem definida, mas sem que ele precisasse malhar para mantê-la, ele deveria fumar, ter um carro bom mas modesto, cursar a mesma faculdade que ela, no curso de jornalismo. Ela o imaginou um grande amante das artes, trompetista, ele gostaria dos mesmos estilos musicais e cinematográficos que ela, gostaria de jogos como xadrez, gamão e jogos de cartas, mas não seria um fã de esporte, mesmo assim não poderia ser classificado como um nerd, ele seria “cool” demais para que alguém o rotulasse dessa forma. Ele se vestiria de forma básica, jeans, camiseta sem estampa, tênis, óculos, barba por fazer, contudo andaria sempre limpo e cheiroso. Ele seria fotógrafo, nascido em 15 de outubro e seu nome seria Tomás. Ele a amaria mais que qualquer coisa na vida e ainda seria seu melhor amigo. Sentiria ciúmes, a protegeria, a ajudaria a levar uma vida sem restrições monetárias, seria seu único amor. Por defeitos, ela quis que ele quisesse muito ser pai e esse seria o grande drama desse casal.
Ela montou o perfil de seu “homem dos sonhos”…
2ª canção -
Deixe-me contar como tudo aconteceu: Margot cursava Filosofia em uma universidade pública bem conceituada e de difícil acesso, tinha 24 anos quando ingressou no curso superior e já se sentia um pouco velha para uma caloura. Gostava muito de ler, de discutir, de dialogar, de aprender e tinha o sonho de viajar por quase todos os lugares do mundo. Ela namorava um idiota na época, mais por capricho do que por amor, afinal seu pai odiava o rapaz em todos os aspectos possíveis e essa era a única razão para ela manter aquele relacionamento.
Margot é a segunda de quatro filhos de um casamento em que o pai é muito mais novo que a mãe e ambos ainda eram adolescentes quando começaram a procriar.